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Festas, Sexualidade e Substâncias Psicoactivas


    Substâncias mais e menos perigosas

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    Substâncias mais e menos perigosas Empty Substâncias mais e menos perigosas

    Mensagem por Admin em Ter Abr 17, 2007 5:24 pm

    Recentemente foi publicado no Reino Unido o estudo “Development of a rational scale to assess the harm of drugs of potential use”, cujos resultados apontam para um desfasamento entre a perigosidade de várias substâncias e os seus estatutos legais.

    Vários especialistas na área, alguns dos quais membros do grupo de conselheiros do governo britânico para as drogas, foram convidados a classificar o perigo potencial do uso dessas substâncias em três eixos: dano físico, perigo de adição e danos sociais.

    Entre as recomendações dos peritos constam a subida dos barbitúricos da classe B para a classe A e a descida do LSD e do Ecstasy da classe A para a classe B.
    Entretanto o executivo britânico já manifestou não tencionar rever a lei.

    Para acederes ao estudo completo (Revista The Lancet), segue o link:
    http://www.lila.it/doc/documentazione/rdd/thelancet.pdf

    O quadro abaixo é o resumo das conclusões do estudo, com a perigosidade de cada substâncias. A cor de cada barra depende da classificação legal da respectiva substância, no Reino Unido.

    Substâncias mais e menos perigosas Quadro10

    Que achas deste estudo?
    Haverá drogas/substâncias psicoactivas mais e menos perigosas?
    Quais as mais e menos potencialmente pejudiciais?
    Está a lei ajustada à perigosidade das substâncias?
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    Marco

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    Mensagem por Marco em Qui Ago 16, 2007 7:48 pm

    Respondendo directamente às perguntas: Smile

    O estudo parece merecer credibilidade.

    Sim, há drogas mais perigosas que outras nem que seja pelo simples facto de algumas poderem provocar a morte imediatamente a seguir ao consumo. Algumas têm a sua dose útil (que provoca o efeito desejado) muito próxima da dose letal, o que as torna especialmente perigosas, principalmente no cenário proibicionista e de mercado negro em que é muitas vezes impossível determinar a dose de maneira fiável devido às contaminações e adulterações das substâncias. Outras drogas há que encerram perigo ou potencial dano pelo modo de consumo e não pela substância em si, perigo ou dano que poderia ser evitado simplesmente com boa informação.

    Claramente as mais potencialmente prejudiciais serão os opiácios, o álcool, as anfetaminas (e outras da mesma familia) e os barbitúricos pela potencialidade de provocar a morte imediata e a dependência física. Na minha opinião as menos prejudiciais serão os canabinóides, embora o estudo os coloque no meio da tabela o principal dano é causado pelo modo de consumo, o fumo, que pode facilmente ser evitado vaporizando ou ingerindo. Penso que os psicadélicos, embora possam ser menos tóxicos se tornam mais perigosos pelo facto de terem grande influência na percepção da realidade o que pode levar a acções e atitudes que poderão pôr o consumidor em perigo. No entanto a questão não é tanto pelas substâncias mais ou menos perigosas, deve pensar-se mais em consumos com mais ou menos risco. Um consumo ponderado, responsável e bem preparado da mais perigosa das substâncias não encerra grandes perigos, tem é que ser baseado em informção correcta.

    Não! A lei nunca foi ajustada à perigosidade das substâncias porque a lei sempre foi ajustada à política e à moral do momento e nunca baseada em factos cientificos infelizmente. Toda a gente devia saber que os argumentos usados nos primórdios da proibição nos EUA eram profundamente racistas. Proibiu-se o ópio como modo de repressão dos chineses, proibiu-se a canábis como ferramenta de repressão contra os negros e os mexicanos. Proibiram também o álcool baseando-se em moralismos e ganharam com isso o Al Capone e companhia. A proibição do álcool caiu, esperemos que as outras também caiam segundo a mesma lógica, retirar o poder que foi dado ao mercado negro e retirar das ruas os produtos adulterados por esse mesmo mercado negro.

    .
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    Mensagem por hUgo em Sex Ago 24, 2007 4:27 pm

    Opiniões interessantes. Nas generalidade concordo. Gostaria de sublinhar o seguinte:

    "Algumas têm a sua dose útil (que provoca o efeito desejado) muito próxima da dose letal, o que as torna especialmente perigosas, principalmente no cenário proibicionista e de mercado negro em que é muitas vezes impossível determinar a dose de maneira fiável devido às contaminações e adulterações das substâncias."

    De facto é verdade. Normalmente não se tem a certeza absoluta do que se está a tomar ou da pureza do que se está a tomar... Isso facilita enganos nas doses, o que por vezes pode ser muito perigoso.

    Em relação ao risco pulmunar de fumar Cannabis "que pode facilmente ser evitado vaporizando ou ingerindo"...
    Verdade, mas não esquecer que ingerindo outros riscos podem surgir (estado de coma, dificuldade de controlar a dose, bad trip etc...)
    Mas mesmo em relação aos riscos pulmunares da Cannabis há indicadores contraditórios... Um estudo do ano passado da UCLA não encontrou tal relação. Pena não ser fácil aceder ao estudo; de qualquer modo aqui está a notícia Marijuana Does Not Raise Lung Cancer Risk (FoxNews)

    "No entanto a questão não é tanto pelas substâncias mais ou menos perigosas, deve pensar-se mais em consumos com mais ou menos risco."
    Concordo. Não se deve ver as substâncias como algo intrinsecamente bom ou mau. A experiência resultante do consumo emerge da relação entre o Sujeito que consome; a Substância consumida; o Ambiente envolvente...
    Quem consome tem um enorme papel activo na direcção que a experiência de consumir toma. Os consumidores não são meros agentes passivos sujeitos às substâncias, nem estas são entidades super poderosas que provocam sempre os mesmos efeitos... É tudo uma relação dinâmica em que sujeito, substância e ambiente interagem sendo difícil saber se algum dos três tem supermacia sobre os outros... A ideia é o sujeito nunca ficar demasiado subalterno à força das substâncias e dos ambientes. Isso não quer dizer que controle completamente a experiência.

    Acerca do ajuste da lei à perigosidade das substâncias, de facto está mais ajustada à suposta moralidade dominante. Só recentemente a política em relação às drogas começa a entrar no campo da saúde; tem sido muito mais um assunto político e de justiça... É claro que a sociedade branca dominante dos EUA, desde que a escravatura foi abolida, sempre teve medo de subversão étnica e cultural dos hábitos supostamente norte-americanos (mais britânicos ou europeus!), por influência de índios, africanos e hispânicos... Controlar as substâncias que estes indivíduos usavam foi uma forma de lhes tirar a identidade, a força e a liberdade ao mesmo tempo que se protegia o resto da sociedade da influência que poderiam ter. Irónico que apesar de toda a proibição de substâncias e controlo de costumes hoje em dia o adolescente norte-americano típico, mesmo que branco, fuma Ganja, ouve hip-hop, fala e tem costumes típicos de negros, hispânicos ou índios... Ou seja, o puritanismo cultural não parece ter futuro e as leis que vêm do tempo em que esse puritanismo se julgava possível podem bem ser revistas.

    Pelo que não surpreende que este estudo tenha sido pedido pelo governo britânico e que os resultados do mesmo mostrem desfazamento entre a perigosidade das substâncias e o respectivo estatuto legal... Mesmo que o proibicionismo se mantenha, não necessariamente temos que continuar no obscurantismo da falta de informação e desinformação que só aumenta os problemas derivados dos consumos, dando legitimidade ao proibicionismo...
    Afinal, a quem interessa o proibicionismo?! Quem ganha e quem perde com ele?
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    Marco

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    Mensagem por Marco em Qui Ago 30, 2007 1:38 pm

    hUgo escreveu:Opiniões interessantes. Nas generalidade concordo. Gostaria de sublinhar o seguinte:

    "Algumas têm a sua dose útil (que provoca o efeito desejado) muito próxima da dose letal, o que as torna especialmente perigosas, principalmente no cenário proibicionista e de mercado negro em que é muitas vezes impossível determinar a dose de maneira fiável devido às contaminações e adulterações das substâncias."

    De facto é verdade. Normalmente não se tem a certeza absoluta do que se está a tomar ou da pureza do que se está a tomar... Isso facilita enganos nas doses, o que por vezes pode ser muito perigoso.

    Exacto. Falou-se muito da suposta overdose de uma cidadã israelita no Freedom Festival. Ainda não se falou de resultados da autópsia mas pelo que consta (rumor, não tenho confirmação disto) terá sido por ter consumido cocaína cortada com atropina.

    Outro caso, exemplo perfeito do efeito falado acima: Há um ou dois anos atrás deram à costa nos açores pacotes de cocaína com elevado grau de pureza. Alguma dessa cocaína chegou às ruas a baixo preço. Vários consumidores, habituados a cocaína com pouca pureza e alto preço, foram vítimas de overdoses por não saberem calcular a dose de cocaína tão pura.

    Outras drogas populares como o mdma (Ecstasy) são drogas muito "sujas", ou seja, a proporção de princípio activo em relação ao peso da "pastilha" é muito pequena. O resto são contaminantes e adulterantes. Muitas vezes estes "aditivos" são bem mais prejudiciais que a própria substância.

    O mesmo acontece com o vulgar haxixe marroquino. O vulgar chamon, sabonete, lingua, tem muito pouco ou nenhum haxixe. O grosso do volume é matéria vegetal triturada misturada com aglomerantes (cera, parafina, leite condensado), corantes (henna, café) e outros aditivos para dar aroma (resina de pinheiro, Vicks vapo'rub). Terá apenas uma pequena percentagem (5% ou 10%) de resina de cannabis com um pouco de sorte. Por vezes a mistura é tão fraca que até barbitúricos e outras substâncias perigosas são misturados para a mistela dar algum efeito. Esta mistura que por vezes tem até tabaco, solventes, areia e estrume na sua composição tem um impacto muito mas muito maior na saúde do consumidor do que pura resina de canábis que deveria ser o único constituinte do haxixe. Hoje em dia quem quer realmente produtos de cannabis de confiança ou vai directamente ao produtor, em Marrocos, ou então produz em casa, arriscando-se a uma pena de prisão se for descoberto pelas autoridades (mesmo que seja uma única planta para consumo próprio).

    hUgo escreveu:Em relação ao risco pulmunar de fumar Cannabis "que pode facilmente ser evitado vaporizando ou ingerindo"...
    Verdade, mas não esquecer que ingerindo outros riscos podem surgir (estado de coma, dificuldade de controlar a dose, bad trip etc...)
    Mas mesmo em relação aos riscos pulmunares da Cannabis há indicadores contraditórios... Um estudo do ano passado da UCLA não encontrou tal relação. Pena não ser fácil aceder ao estudo; de qualquer modo aqui está a notícia Marijuana Does Not Raise Lung Cancer Risk (FoxNews)

    Sim, até penso que há outros estudos que indicam o mesmo. Cannabis parece não provocar cancro mas quando falei nos riscos para o sistema respiratório não estava a falar do risco de cancro mas sim do risco de enfisema, obstrução pulmonar e inflamações das vias. Estes riscos embora não tão graves como o de cancro, devem ser previnidos e podem sê-lo vaporizando cannabis em vez de fumar.

    Quanto a ingerir, sim, é dificil calcular a dose e a intensidade do efeito depende de outros factores que não a dose (se se está de estômago vazio ou cheio, se se comeram alimentos com gordura, depende também do metabolismo de cada um). Pessoas diferentes podem também ter efeitos de intensidade muito diferente. Além disso o efeito demora algum tempo a surgir (a mim normalmente demora cerca de uma hora a fazer efeito) o que por vezes leva consumidores a continuarem a consumir antes do efeito surgir pensando que ingeriram uma dose muito pequena. Por acaso nunca ouvi falar de casos de coma mas realmente é fácil consumir uma dose demasido grande o que não é nada agradável e o efeito pode prolongar-se durante vários dias.

    hUgo escreveu:Irónico que apesar de toda a proibição de substâncias e controlo de costumes hoje em dia o adolescente norte-americano típico, mesmo que branco, fuma Ganja, ouve hip-hop, fala e tem costumes típicos de negros, hispânicos ou índios... Ou seja, o puritanismo cultural não parece ter futuro e as leis que vêm do tempo em que esse puritanismo se julgava possível podem bem ser revistas.

    Muito bem visto! lol!


    hUgo escreveu:Afinal, a quem interessa o proibicionismo?! Quem ganha e quem perde com ele?

    Tenho uma muito boa resposta a esta pergunta, dada pelo prof. Luis Fernandes da Universidade do Porto. Vou ver se a encontro e posto aqui. Wink

    Obrigado pela resposta, acho que estamos em sintonia em muitos aspectos. Smile

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    Mensagem por hUgo em Qua Nov 25, 2009 8:05 pm

    A BBC já fez um documentário baseado nesta classificação de drogas mais e menos perigosas...